O valor da sobriedade

O valor da sobriedade

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A pesquisa Atlas/Estadão que aponta Cármen Lúcia como a única ministra do Supremo Tribunal Federal com avaliação positiva superior à negativa não deve ser lida como um concurso de popularidade. Ministros não existem para agradar à opinião pública, e decisões constitucionais muitas vezes precisam contrariar maiorias. Mas os números revelam algo que o Supremo não pode desprezar: em meio a uma crise de confiança, a postura pessoal e institucional de quem julga importa tanto quanto o conteúdo de seus votos.

Segundo o levantamento, Cármen Lúcia tem 47% de imagem positiva e 38% de negativa. É uma diferença pequena, mas simbólica num tribunal em que os demais integrantes registram saldo desfavorável. O dado não transforma a ministra em unanimidade, tampouco a coloca acima de críticas. Mostra, porém, que parte relevante da sociedade ainda identifica nela uma forma de exercer a autoridade que não depende de confronto permanente, exposição calculada ou disputa por protagonismo.

O momento ajuda a explicar essa percepção. O STF vive uma crise que não nasceu apenas de ataques externos ou de campanhas nas redes sociais. Ela foi alimentada por dúvidas sobre relações entre poder, interesses privados e autoridades públicas; por vazamentos, acusações, embates entre ministros e respostas que nem sempre pareceram suficientes para uma sociedade que cobra explicações. Quando a Corte passa a ocupar o noticiário mais por suas tensões internas do que por suas decisões, alguma coisa se perdeu no caminho.

Foi nesse ambiente que Cármen Lúcia afirmou que o Supremo havia provocado um “mal-estar cívico”. A expressão é importante porque reconhece uma verdade frequentemente esquecida pelo poder: instituições não vivem apenas de competências legais. Vivem também de legitimidade. Um tribunal pode ter todos os instrumentos constitucionais, todas as prerrogativas e toda a autoridade formal, mas se perde a confiança do público passa a decidir em terreno mais frágil. A lei continua válida; a instituição, porém, deixa de ser ouvida com a mesma disposição.

Há uma tentação, em tempos de polarização, de transformar todo debate sobre o Supremo em guerra de torcidas. De um lado, os que tratam qualquer crítica como ataque à democracia. De outro, os que confundem desconfiança legítima com a desqualificação completa da instituição. Ambos erram. Defender o STF não é blindar seus integrantes de perguntas. Criticar ministros não é desejar a ruína das instituições. A democracia exige justamente o contrário: respeito pela Corte e exigência rigorosa de transparência, independência e decoro.

A boa imagem de Cármen Lúcia parece decorrer menos de uma tentativa de agradar e mais de uma marca de comportamento. Em momentos de conflito, a sobriedade se torna uma forma de liderança. Não é silêncio diante de problemas, nem neutralidade artificial. É a capacidade de reconhecer a gravidade de uma crise sem usar a crise como palco. É falar com responsabilidade, sem transformar a função pública em espetáculo. É compreender que uma cadeira no Supremo não pertence a quem a ocupa, mas à República.

O contraste é especialmente relevante porque o Brasil se acostumou a autoridades que confundem visibilidade com autoridade. A política, a Justiça e a vida pública foram tomadas pela lógica da reação imediata. Toda divergência parece precisar de uma resposta pública; toda crítica, de uma reação; todo conflito, de uma frase destinada a circular. Nessa dinâmica, a prudência pode parecer fraqueza. Mas não é. Prudência é a disciplina de quem sabe que palavras de um ministro não são apenas palavras: podem afetar processos, instituições e a confiança de milhões de pessoas.

Isso não significa pedir magistrados apagados, inacessíveis ou indiferentes ao país. O Supremo precisa ser transparente, comunicar suas decisões e prestar contas de sua atuação. Mas há uma diferença entre transparência e espetáculo. A primeira esclarece; o segundo mobiliza paixões. A primeira fortalece a Justiça; o segundo pode torná-la refém de disputas políticas que deveriam permanecer fora do julgamento.

A pesquisa também deve servir como alerta, e não como consagração individual. Nenhum ministro deveria se acomodar em índices favoráveis, assim como nenhum integrante do STF deveria ignorar rejeições altas como se fossem apenas resultado de incompreensão popular. A crise de imagem da Corte não será resolvida por uma personagem isolada, por uma frase bem recebida ou por uma campanha de comunicação. Exige respostas institucionais: regras claras de impedimento, transparência sobre relações e agendas, rigor ético e disposição para apurar qualquer suspeita sem corporativismo.

Cármen Lúcia aparece bem avaliada porque, neste momento, parece representar uma expectativa simples da sociedade: que o poder público aja com contenção, seriedade e consciência de seus limites. É uma expectativa modesta apenas na aparência. Em uma democracia cansada de ruído, ela se tornou rara.

O Supremo não precisa ser popular. Precisa ser confiável. E confiança não se constrói com blindagem, frases de efeito ou cerimônias. Constrói-se com conduta. A lição sugerida pela pesquisa não é que o STF deva seguir uma ministra, mas que todos os seus integrantes devem lembrar o que a toga exige: menos espetáculo, mais responsabilidade; menos reação, mais explicação; menos poder exibido, mais autoridade merecida.