O que ex-secretário de Saúde disse sobre Álvaro Dias e Adjuto Dias: confira o documento da PF

O que ex-secretário de Saúde disse sobre Álvaro Dias e Adjuto Dias: confira o documento da PF

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Em uma ligação interceptada pela Polícia Federal em 4 de julho de 2021, o então secretário de Saúde de Natal, George Antunes, atribuiu ao adjunto Vinícius Capuxu de Medeiros a insistência na compra de respiradores investigada pela Operação Rebotalho. Disse que o auxiliar era da confiança do prefeito e do filho dele, levantou uma hipótese de envolvimento de outras pessoas e reconheceu que havia permitido a aquisição.

O prefeito mencionado era Álvaro Dias (PL), hoje candidato ao Governo do Rio Grande do Norte. A referência ao filho que pretendia disputar uma eleição para deputado remete a Adjuto Dias (PL), eleito deputado estadual em 2022. George não pronunciou os nomes dos dois naquele trecho.

A conversa aconteceu três dias depois da operação e foi registrada no Auto Circunstanciado Telefônico nº 02, elaborado pela PF em 14 de julho de 2021. O documento identifica uma ordem judicial do juiz federal Mário Azevedo Jambo.

Os três recortes abaixo reproduzem as páginas 4, 5 e 6 do auto. Os destaques amarelos foram acrescentados pela edição; os negritos já constam do documento.

1. A resistência à compra — e a autorização

George atribui ao adjunto a insistência na compra dos respiradores. Auto Circunstanciado Telefônico nº 02, p. 4 — Reprodução/PF; destaques editoriais

“O pior, o pior Marcos é que eu não queria comprar esse negócio, sabe? Foi aquele Secretário Adjunto que ficou insistindo nesse negócio, sabe?”

George contou ao interlocutor, identificado como Marcos, que o adjunto insistia na aquisição sob a justificativa de que não havia equipamentos disponíveis em outros fornecedores. Na sequência, reconheceu: “aí com muita luta eu permiti”.

A fala registra tanto a resistência inicial quanto a decisão de autorizar a compra. Na mesma página, George também relatou desconfiança sobre a negociação: “Eu fiquei cismado com medo dessa empresa não existir, sabe? Com medo desses equipamentos não prestarem…”

2. A confiança atribuída ao prefeito e ao filho

George menciona a confiança atribuída ao prefeito e ao filho e levanta uma hipótese de envolvimento. Auto Circunstanciado Telefônico nº 02, p. 5 — Reprodução/PF; destaques editoriais

“São cargos que é para ser da nossa confiança, aí o cara não é da minha confiança, mas é da confiança do Prefeito, é da confiança do filho do Prefeito”

O secretário discutia a relação de confiança necessária para trabalhar com um adjunto. Embora Vinícius integrasse a estrutura da secretaria que George comandava, ele atribuiu a confiança no auxiliar ao prefeito e ao filho.

O trecho não descreve uma ordem de Álvaro ou Adjuto para comprar os respiradores. Registra a avaliação de George sobre a ligação do adjunto com os dois.

3. A hipótese de envolvimento

“então se no final das contas você for atrás, deve ter esse povo todo envolvido, inclusive esse filho desse Prefeito, o cara quer se candidatar aí a Deputado”

Essa passagem aparece imediatamente depois da referência à confiança do prefeito e do filho, no mesmo parágrafo do recorte da página 5 reproduzido acima.

A expressão “deve ter” registra uma hipótese levantada por George. Na conversa, ele não apresenta documentos, pagamentos ou uma descrição de atos que comprovem a participação de Álvaro ou Adjuto na irregularidade investigada.

4. A ressalva sobre eventual interesse escuso

George diz não saber se havia dificuldade real de compra ou interesse escuso. Auto Circunstanciado Telefônico nº 02, p. 6 — Reprodução/PF; destaques editoriais

“eu não sei até que ponto ele, de fato, estava tendo dificuldade para comprar ou se tinha algum interesse escuso, eu não posso julgar uma pessoa.”

A ressalva surgiu quando Marcos perguntou sobre os preços dos aparelhos. George respondeu que a escassez durante a pandemia dificultava avaliar se o valor era alto ou baixo.

Ao tratar da conduta do adjunto, admitiu não saber se a dificuldade para encontrar respiradores era real ou se existia algum interesse indevido na negociação.

A compra que motivou a investigação

A Prefeitura do Natal adquiriu, em 2020, 20 respiradores usados ou seminovos por R$ 2,16 milhões, equivalentes a R$ 108 mil por unidade. A fornecedora foi a Spectrum Medic Comércio e Serviços Ltda.

O Ministério Público Federal apontou suspeitas de direcionamento da contratação, problemas nos equipamentos e superfaturamento. O prejuízo foi estimado pela acusação em pelo menos R$ 1.433.340. Esse valor corresponde ao dano calculado pelo MPF, contestado pela defesa; não demonstra que Álvaro ou Adjuto tenham recebido dinheiro.

O que aconteceu com as interceptações

Em 25 de agosto de 2026, a 14ª Vara Federal do RN determinou a exclusão da interceptação telefônica e de suas prorrogações, em cumprimento a decisões dos tribunais superiores. A decisão não individualiza a ligação reproduzida aqui. A ação penal foi mantida com base nas provas consideradas válidas.

Respondem ao processo Vinícius Capuxu de Medeiros e o empresário Wender de Sá, por peculato com causa de aumento de pena e dispensa ilegal de licitação. Wender também responde por fraude à execução contratual. Álvaro, Adjuto e George não são réus nessa ação. Na consulta pública realizada em 25 de setembro de 2026, não foi localizada sentença criminal.

O que diz a defesa

Em nota divulgada em agosto de 2026, as assessorias jurídica e de comunicação de Álvaro negaram sobrepreço, ressaltaram que ele não é acusado criminalmente e citaram a decisão que rejeitou os pedidos da ação de improbidade sobre a contratação.

Essa decisão cível foi objeto de recurso ao Tribunal Regional Federal da 5ª Região e não encerrou a ação penal.